Resenha - O Chamado da Tribo
- Líderes
- 17 de out. de 2023
- 4 min de leitura
Resenha Crítica por Raphael Ribeiro, Associado I do Instituto Líderes do Amanhã
Entender, de fato, o que é o liberalismo, pode variar do mais simples ao mais complexo a depender do interlocutor. Essa afirmação torna-se clara ao ler a obra de Mario Vargas Llosa, sua forma de comunicação clara, objetiva, mas sem desconsiderar a riqueza de detalhes, promove a perspectiva de um homem sensato e que conseguiu vivenciar todos os lados, desde o socialismo ao liberalismo, de uma forma mais equilibrada, talvez. Em sua obra, Llosa retrata suas vivências através de um breve relato introdutório sobre sua passagem para o outro lado do pensar, e retrata essa mudança significativa através de pensadores variados, os quais foram responsáveis por auxiliar essa nova forma de viver e de se posicionar no mundo.
Llosa apresenta sua trajetória desde os primeiros passos na universidade, seus primeiros contatos com o socialismo, ao se afiliar ao Partido Comunista durante sua juventude, suas vivências com o marxismo e o existencialismo sartriano (réplica do próprio autor), ao liberalismo e concluindo com um novo entendimento da democracia. A obra descreve alguns relatos vivenciados por Llosa, como ser acusado de espionagem por Fidel Castro, seu exílio para Espanha, seus encontros com figuras emblemáticas, como Margaret Thatcher e Ronald Reagan, e, principalmente, como o autor descreve. Sua evolução intelectual ocorreu pelas literaturas revolucionárias que surgiram ao longo de sua trajetória, desde George Orwell a Ludwig von Mises. No entanto, o objetivo principal de Llosa, em sua obra, não era descrever sua trajetória ou realizar uma autobiografia, mas apresentar os 7 principais pensadores que o empurraram para o liberalismo político, sendo eles: Adam Smith, José Ortega y Gasset, Friedrich von Hayek, Karl Popper, Isaiah Berlin, Raymond Aron e Jean-François Revel.
Ao relatar sobre os autores, Llosa não se limita apenas a retratar sobre a vida e trajetória, mas traz o foco para as principais obras desses e apresenta sua relevância para a época e para a atualidade, além de apontar sua visão a respeito. Llosa busca retratar, de forma cronológica, não em relação a si, mas de acordo com as épocas dos autores. Por isso, inicia descrevendo Adam Smith, o pai do liberalismo, bem como realiza apontamentos críticos sobre suas obras, discordâncias sobre algumas visões de Smith e o que, de fato, mudou sua forma de pensar em relação ao liberalismo econômico, político e filosófico. Retrata sobre a relação de David Hume e Adam Smith, a influência de ambos em suas respectivas obras, o retrato da obra mais marcante, “A Riqueza das Nações”, além das controvérsias, segundo o autor, de Adam Smith, pois esse defendia de forma austera o comércio e realizou duras críticas aos fazendeiros e aos colonos de sua época. O ponto chave é o nível de detalhe apresentado pelo autor sobre a vida de Adam Smith e a relevância dele para a construção de sua forma de pensar.
Em sequência, discorre sobre José Ortega y Gasset, filósofo com relevância no século XX e qualificado por Llosa como um dos mais brilhantes e elegantes liberais, por abordar justamente sobre a “desumanização” das artes e da literatura. O impacto de Ortega y Gasset teve sua relevância, porém, não houve tanta imersão como os demais apresentados no livro. Em sequência, apresenta sua avaliação de Friedrich von Hayek, sua vida, sua relevância, suas obras e como essas são contraditórias em alguns pontos e tantos outros, extremamente essenciais e relevantes para os liberais.
O nível de detalhe apresentado por Llosa, torna-se cansativo para os conhecedores de Hayek, porém, demonstra o nível de importância dada pelo autor da obra a esse grande filósofo e economista. Llosa faz um comparativo de todos os liberais, dando ênfase a Hayek, Mises e Friedman, principalmente pelas divergências que havia entre os três. Llosa afirma que Hayek foi o mais imponente e importante, justamente por seu perfil autêntico e sua franqueza marcante.
O próximo a ser abordado é Sir Karl Popper, que, segundo Llosa, esse escreveu o livro-chave do pensamento liberal democrático moderno, devido a Hitler e os nazistas. Um judeu protestante com profundidade no estoicismo estudou sobre Platão e Aristóteles e tantos outros filósofos para combater o nacionalismo. O direcionamento de Llosa sobre Popper é voltado para a filosofia moderna, o qual traduz, de fato, o que é o liberalismo, realizando a distinção do conservadorismo e, principalmente, a abordagem sobre a linguagem. Sir Popper tem uma relevância significativa para Llosa e para os liberais devido a sua obra-prima, “A sociedade aberta e seus inimigos”. Nessa mesma relevância, Raymond Aron, judeu criado na França, com toda sua pompa, sobriedade e inteligência, gerou grande impacto na sociedade europeia e mundial, ao apresentar sua obra “O ópio dos intelectuais”, e se autodenominava “liberal incorrigível”. Llosa descreveu Aron como um dos últimos grandes intelectuais europeus, além de ser um moralista, filósofo e sociólogo de alto nível, uma perda imensurável e que talvez não haverá reposição similar para os tempos atuais.
Os pensadores que mais influenciaram Llosa, Sir Isaiah Berlin e Jean-François Revel, contribuíram de forma relevante com suas ideias e literaturas para seu ingresso no mundo liberal. Deve-se a Sir Berlin, a apresentação de uma visão mais equilibrada e livre de preconceitos. Apresentando um ensaio limpo e sugestivo a respeito de Karl Marx. A controvérsia está justamente em que Sir Isaiah Berlin não havia a expectativa de publicar nenhuma de suas obras, tampouco realizou sua autobiografia, porém, um aluno Henry Hardy conseguiu convencê-lo a compilar, editar e publicar seus pensamentos. Em paralelo, Revel é apresentado como jornalista e ensaísta político, ou seja, gerou a contribuição de apresentar os fatos e as teorias liberais de forma clara, além de gerar as literaturas consistentes, de forma iconoclasta e sensata.
A importância da obra de Llosa é exatamente apresentar o liberalismo, suas contradições, a maturidade necessária para cada indivíduo e o exercício de pensar, na íntegra, sobre todas as ideias existentes para possibilitar a criação de uma forma sincera de viver, com valores morais e éticos reais. O autor Mario Vargas Llosa demonstra que o chamado da tribo é realizado diariamente e atinge dos mais ignorantes aos mais intelectuais. No entanto, para atingir o pensamento liberal em todas as esferas necessárias, desde a esfera filosófica até a econômica e política, o mais importante é conhecer a todos os vieses e criar seu próprio pensamento, seja equilibrado, como de Llosa, ou até mesmo o mais radical existente.

Raphael Ribeiro, Associado I.


Comentários