Resenha - Cuba e o Cameraman
- Líderes
- 25 de jul. de 2023
- 5 min de leitura
Resenha Crítica por Elimar Lorenzon, Associado I do Instituto Líderes do Amanhã
Jon Alpert é um jornalista nova-iorquino, fotógrafo e cineasta, nascido em 1948. Em 2013, foi indicado ao Oscar de melhor documentário em curta-metragem. Ao longo de sua carreira, ganhou 17 prêmios Emmy, inclusive foi um dos indicados nesse prêmio pela sua obra Cuba e o Cameraman, na qual narra a história de 3 famílias cubanas ao longo das décadas após a revolução do país, liderada por Fidel Castro.
Os registros do documentário se iniciaram na década de 70, quando Alpert chegou de barco a Havana, capital cubana. Naquele momento era o único meio de um cidadão americano entrar no país. A Revolução Cubana, que havia se iniciado há mais de uma década, gerava mudanças percebidas de forma positiva pela sociedade.
Mesmo com equipamentos de gravação arcaicos e pesados, Alpert, junto de sua esposa, conseguiu traçar detalhes de como a ilha socialista da América Central se transformou com o tempo. Após derrotar a ditadura de Fulgêncio Batista e a influência norte-americana no país, era possível destacar o aumento da qualidade de vida, construção de casas, acesso à alimentação e educação até meados da década de 80. Todo cubano tinha acesso a saúde pública e gratuita. “No me cobran nada”, afirmava uma cubana no documentário, estampando o sorriso no rosto.
Nas escolas, muitos sonhos eram compartilhados entre crianças e jovens: ser médico, engenheiro, professor ou veterinário. Paralelamente, no 16º aniversário da revolução, os cidadãos brindavam com cidra, enquanto o partido comunista se reunia no Congresso. Muitos gritos de “Pátria o Muerte!” eclodiam nas ruas e nas paredes pichadas em defesa ao governo cubano.
FIDEL CASTRO
Jon narra parte da primeira comitiva de Fidel aos Estados Unidos após a revolução. Havia uma clara rivalidade entre os países. Os norte-americanos já haviam tentado isolar Cuba para enfraquecer a economia e o país, mas cerca de 85% das transações comerciais eram feitas entre os membros do bloco socialista.
Jon se torna próximo a Fidel e durante essa viagem, conseguiu embarcar no mesmo voo que o político cubano e capturar, com detalhes, sua intimidade, inclusive entrando no apartamento que hospedou o revolucionário durante sua estadia nos Estados Unidos.
Nessa viagem, em uma das abordagens da NBC, o jornalista se atrasou para encontrá-lo por estar brigando com a própria emissora, que queria cortar algumas cenas da entrevista com Fidel. Em tom de ironia e remetendo ao capitalismo, ele provou: “Por que não vende (as gravações) para outro canal? Aqui as emissoras não competem?”
CRISTOBAL E A FAMÍLIA DO CAMPO
Uma das famílias que Alpert acompanhou ao longo de suas idas a Cuba é a de Cristobal e seus 3 irmãos: Angel, Gregorio e Lilo. Todos viviam no campo e do campo. Cristobal é a figura mais marcante dessa família: sempre feliz, sorrindo, olhar esperançoso, exibindo seus bois, seu trabalho.
E assim foi o início da revolução, até o socialismo começar a se mostrar inviável e insustentável, e o bloco iniciar sua decadência. Em 1988, o Muro de Berlim caiu. Também foi o marco para o fim do subsídio diário de 8 milhões de dólares que Cuba recebia da União Soviética. Há uma clara mudança de cenário em todos no país. Faltam suprimentos básicos e matérias-primas para as indústrias que vinham, em sua maioria, da URSS. Fábricas estavam fadadas a fechar.
Para Cristobal, o sorriso foi ficando distante. Seus animais, que eram um dos motivos de seu orgulho, foram mortos para se tornar refeição de outrem. Não havia carne. Até seu cavalo virou comida de ladrões. O preço de um boi custava 10 mil pesos, o equivalente a 20 anos de trabalho do Cristobal. Roubavam tudo, até sua lavoura de milho. A comida era racionada e porcionada para cada pessoa. O senhor de 80 anos, sempre reconhecido por sua figura carismática e alegre, mostrava as tristes marcas de um regime.
Após o esforço de um dia duro sob o Sol, não era raro Cristobal se reunir com seus irmãos e encontrar alguns amigos em uma mercearia para fechar o dia com alguma dose de álcool. A partir da década de 90, já não havia bebidas nos bares e mercearias. A verdade é que as pessoas tinham medo de sair à noite e serem roubadas ou atacadas. Muitos nem saíam de casa.
Cristobal desenvolveu câncer de laringe e conseguiu uma cirurgia gratuita na garganta. Porém, perdeu sua voz, e o equipamento que simulava sua fala não estava disponível em Cuba.
CARIDAD, A MENINA DOS SONHOS SEM FRONTEIRA
Caridad foi uma das amizades que Alpert fez após fotografá-la na infância. Ela estudava e tinha o sonho de se tornar enfermeira. Dezesseis anos depois, Alpert a reencontrou e tomou ciência de que ela havia se casado aos 14 anos, teve dois filhos e não concluiu seus estudos. Em relação a comida, Caridad relata que nunca faltava.
Porém, para Caridad, agora mulher e mãe, os sonhos mudaram com o passar dos anos. Ela conseguiu migrar para os Estados Unidos em vista das dificuldades enfrentadas em Cuba, deixando para trás seus filhos, que foram localizados por Alpert. Mesmo de longe, ela continuava os apoiando. Muitas vezes, a ajuda de Caridad era a única fonte de comida que eles tinham, ainda que de forma escassa.
Alguns anos depois, Caridad também conseguiu levar seus filhos aos Estados Unidos. Alpert ficou sabendo dessa informação pelos vizinhos da família, não relatando nenhum outro contato com a família após a saída de Cuba.
LUÍS, O EMPREENDEDOR FORA DA LEI
Luís foi outro personagem real dessa história narrada por Alpert. Ele se mostrou uma pessoa esforçada, dinâmica, sagaz. Porém, em uma das idas a Cuba, Alpert ficou sabendo que ele estava preso por 4 anos, por trabalhar no mercado negro.
Para a população, os suprimentos eram embalados e contados por porção mensal a cada pessoa, porções que normalmente eram incapazes de sustentar um indivíduo. As prateleiras estavam vazias. Havia filas para pegar comida: 500 g de peixe por semana, 1 pão por dia. Todos os dias quatro horas obrigatórias sem energia com o mesmo objetivo de racionar recursos.
A partir de 2000, o turismo passou a ser uma fonte muito importante de renda para o país. Muitos engenheiros, jornalistas e outros profissionais começaram a viver do artesanato de rua, pois isso se tornou mais lucrativo do que suas profissões.
O mercado negro era uma forma não apenas de conseguir alimentos além dos que eram disponibilizados, mas, também, de sobreviver. Luís caminhava com Alpert pela cidade e mostrava que muitas empresas, padarias e fábricas que visitaram no passado haviam fechado. 80% das pessoas viviam do mercado negro, como era o caso de um dos amigos de Luís, que vendia charutos que conseguia na fábrica onde trabalhava.
Na última viagem relatada de Alpert, Luís abriu o próprio negócio, revendendo materiais de construção. Conseguiu reformar sua casa. Aliás, era nas próprias casas que esses negócios eram administrados e executados. Lojas maiores eram gerenciadas pelo Estado. Este praticava preços tão altos que garantia a alta procura pelo mercado paralelo, como o de Luís.
O LEGADO DE FIDEL
Após os eventos que se sucederam em torno da queda do Muro de Berlim, a situação em Cuba realmente mudou. Nas escolas, as crianças pareciam felizes e saudáveis, mas era consenso entre elas de que a situação estava ruim. Todos queriam mais comida, que era escassa.
Nos hospitais, alguns remédios já estavam sem estoque. Quatro semanas sem antiácidos, quatro meses sem antibióticos. Os profissionais de saúde estavam trabalhando com 30% dos materiais que precisavam. Reutilizavam seringas, não havia possibilidade de esterilizar todos os itens. Até as luvas descartáveis eram lavadas na água para serem usadas mais vezes. Pouco antes de 2006, os médicos ganhavam $25 por mês, menos do que um taxista. Esse mesmo valor era o equivalente para comprar três sacos de cimento.
Em novembro de 2016, morreu Fidel Castro. Ainda que a situação fosse precária, uma multidão seguia aos gritos, prestando suas condolências e homenagens. A fome, a miséria, a falta de liberdade e a intervenção estavam presentes, porém, muitos ainda enxergavam o líder socialista como um herói. Havia uma geração de pessoas que não conhecia Cuba sem Fidel. Sem a falta de referencial e com um Estado atuante na alienação de seu povo, o socialismo perdura às duras penas de sua própria população.

Elimar Lorenzon, Associado I.


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